O Beijo Corporativo
Há algumas décadas, o ambiente corporativo deixou de requerer comportamento ortodoxo. A formalidade esmagadora de antes, anunciada já chegada com o barulho do cartão de ponto – para muitos representação sonora das correntes amarradas nos tornozelos dos escravos -, já foi ultrapassada há muito, não sendo mais necessário que funcionários se levantem de suas escrivaninhas para cumprimentar o chefe ou o diretor, pela manhã.
O ambiente físico sem luz adequada parecia ser a própria materialização da impressão de prisão que as corporações exprimiam; como resposta inconsciente dos funcionários, a disposição desordenada das mesas, dos livros, dos documentos nas estantes, tudo parecia traduzir seus sentimentos em relação à empresa. Muito debilmente e muito a fórceps, as empresas conseguiam lucros interessantes e imagem de mercado adequada. Somente grandes corporações, e dirigidas por mentes vanguardistas, se situavam de maneira a se diferenciar.
Hoje, a evolução do relacionamento em geral chegou ao relacionamento corporativo. Comportamentos antes considerados inadmissíveis são reconhecidos como necessários ao ambiente de trabalho, como sorrisos, competitividade, visão de futuro etc. Mas talvez a mente humana não tenha aprendido a conviver com tal evolução.
O dia a dia corporativo é um complexo mundo à parte das expectativas de escalões altos de uma empresa. Por mais que gerentes e supervisores se imaginem senhores da situação, muitas circunstâncias escapam do poder de percepção humana, ainda que tais tenham passado horas e horas em cursos diversos de gestão. O simpático beijo em ambiente de trabalho é um dos elementos daquelas situações.
Ao oferecer o rosto p
ara um beijo de bom dia nas manhãs, os funcionários estão oferecendo mais que simples intimidade: oferecem um universo mútuo de pactos, que pode ou não ser benéfico para a empresa. A mente humana recebe impressões constantemente e com elas vai formando seu mundo interior. A partir deste, desenha seu comportamento que é, por sua vez, expresso no gestual, olhares, considerações situacionais etc.
Num ambiente em que haja dez colaboradores, é possível que a troca de beijinhos matinais seja feita apenas entre alguns, o que obviamente exclui um ou outro. Por outro lado, mesmo entre os que tiveram o privilégio de ser escolhidos para receber o beijo, pode haver um que, de maneira inconsciente, note que João foi beijado um pouco mais intensamente; ou pode imaginar que recebeu um beijo um pouco mais intenso. Ademais, também é possível que, por algum motivo, a amizade de pessoas que se beijem pelas manhãs esteja temporariamente estremecida. O constrangimento é certo.
Quando o beijoqueiro tem cargo relevante, então, o universo de impressões se amplia. A impressão de separativismo pode se instalar tanto em quem não é beijado como em quem, sendo beijado, acha que merecia um beijo mais amigável, mais forte, mais simpático etc. Com o tempo, tais impressões vão originando sensações diversas.
Intimidade, por exemplo. Pode ser que o empenho não esteja sendo alcançado porque, afinal, sou especial porque minha chefa me beija de maneira diferente; ou então, não vou me empenhar… meu chefe nem um beijinho me dá. É claro que o beijo corporativo, por si e apenas, não acarreta catástrofes econômicas nem impede fechamentos de grandes contratos. Mas, em sendo parte de um conjunto, certamente tem função especialmente relevante no rol de motivos para geração de ambiente estressante. Empresas grandes gastam rios de dinheiro em esquemas motivacionais. Entretanto, detalhes do dia a dia, que passam despercebidos, podem ser instrumento de desmotivação. O ortodoxismo é uma das portas para o insucesso; a informalidade é a janela.
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